Crises Recorrentes de Hemorroidas Não São Normais: Entenda as Causas e Como Tratar

Crises Recorrentes de Hemorroidas Não São Normais: Entenda as Causas e Como Tratar

Sentir dor, desconforto ao sentar, inchaço na região anal ou notar sangue no papel higiênico são episódios que causam apreensão. Para muitas pessoas, esses incômodos passam a se repetir periodicamente: surgem em uma semana, melhoram após o uso de pomadas caseiras e retornam no mês seguinte. Essa oscilação cria uma rotina de alívios temporários que leva à falsa impressão de que “ter hemorroida é assim mesmo”.

No entanto, crises recorrentes de hemorroidas não devem ser encaradas como um fato corriqueiro. As veias hemorroidárias fazem parte da anatomia natural do corpo e desempenham um papel relevante no mecanismo de continência fecal. O problema ocorre quando essas estruturas sofrem sobrecarga, dilatam de forma contínua e inflamam, desencadeando a chamada doença hemorroidária.

Quando os episódios se tornam frequentes, o organismo está sinalizando que os fatores causadores da inflamação continuam ativos ou que o quadro evoluiu para estágios que exigem intervenção clínica estruturada. Compreender a origem das crises é o primeiro passo para recuperar a tranquilidade, o bem-estar e a qualidade de vida.

 

O Que Realmente São as Hemorroidas?

Diferente do que muitos imaginam, todo ser humano nasce com vasos hemorroidários. Eles consistem em coxins vasculares compostos por pequenas artérias, veias e tecido conjuntivo elástico situados no canal anal. Sua função primária é proteger o esfíncter anal durante a passagem das fezes e auxiliar na vedação completa do ânus, impedindo o escape involuntário de gases e secreções líquidas.

Falamos em doença hemorroidária apenas quando esses vasos sofrem dilatação anormal, enfraquecimento de seus tecidos de sustentação e congestão sanguínea. De acordo com a localização anatômica, elas são classificadas em dois tipos básicos:

Hemorroidas internas: formam-se na porção superior do canal anal, acima da linha pectínea. Como essa área possui inervação visceral (menos sensível à dor aguda), seu sintoma clássico costuma ser o sangramento vermelho vivo indolor durante ou logo após a evacuação. Conforme o quadro evolui, podem deslizar para fora (prolapso), exigindo retorno espontâneo ou manual.

Hemorroidas externas: desenvolvem-se abaixo da linha pectínea, sob a pele do ânus (anoderme). Trata-se de uma região rica em terminações nervosas sensitivas. Por esse motivo, quando inflamam, dilatam ou sofrem trombose (formação de coágulo dentro do vaso), geram dor intensa, sensação de peso e nódulos visíveis ou palpáveis.

 

Por Que as Crises Costumam Voltar?

A recorrência de sintomas hemorroidários está diretamente associada à persistência do aumento de pressão intra-abdominal e venous anal. Entre as causas e gatilhos mais comuns para a repetição das crises, destacam-se:

1. Constipação e Esforço Evacuatório

A prisão de ventre é o fator mecânico mais expressivo. Fezes endurecidas e secas exigem um esforço excessivo para serem eliminadas. Essa força empurra o sangue com intensidade para o plexo hemorroidário, distendendo as veias repetidamente e lesionando o tecido de suporte.

2. Hábitos no Vaso Sanitário (Uso de Celular)

Permanecer longos períodos sentado no vaso sanitário — hábito amplamente agravado pelo uso de smartphones — mantém o assoalho pélvico relaxado enquanto a gravidade puxa o fluxo sanguíneo diretamente para o canal anal. Esse efeito de “sucção” e compressão favorece o ingurgitamento das veias hemorroidárias.

3. Diarreias Crônicas ou Fezes Líquidas Frequentes

Embora a constipação seja a causa mais conhecida, a diarreia frequente também lesiona a região anorretal. A acidez das fezes líquidas e a frequência excessiva de evacuações causam irritação química contínua e espasmos da musculatura anal.

4. Sedentarismo e Longos Períodos na Mesma Posição

Profissionais que passam oito ou mais horas sentados em cadeiras de escritório enfrentam compressão contínua da circulação pélvica, o que prejudica o retorno venoso e propicia a estase de sangue na região anal.

5. Baixa Ingestão de Água e Dieta Pobre em Fibras

O trato gastrointestinal necessita de hidratação adequada para hidratar as fibras alimentares ingeridas. Quando o consumo de água é insuficiente ou faltam vegetais, grãos e frutas na dieta, o bolo fecal torna-se rígido, abrasivo e difícil de transitar pelo reto.

 

O Ciclo da Automedicação e Seus Perigos

Diante do desconforto, é comum recorrer a pomadas analgésicas ou anti-inflamatórias disponíveis sem receita médica. Embora muitas dessas formulações contenham anestésicos e corticoides capazes de aliviar momentaneamente a dor superficial e o edema, elas não corrigem a anatomia do vaso comprometido nem resolvem as causas funcionais da doença.

O uso crônico e indiscriminado de pomadas com corticoides na região perianal pode acarretar efeitos adversos importantes, tais como:

  • Atrofia e afilamento da pele local, tornando-a frágil e propensa a fissuras.
  • Dermatite de contato e prurido (coceira) anal persistente.
  • Desenvolvimento de infecções fúngicas ou bacterianas secundárias.
  • Mascaramento de diagnósticos mais graves que exigem conduta específica.
  • A automedicação prolongada cria uma falsa sensação de segurança enquanto o problema de base continua avançando silenciosamente.

 

Diferentes Graus da Doença Hemorroidária

A intensidade e a frequência das crises variam conforme o estadiamento das hemorroidas internas, divididas em quatro graus clínicos:

Grau I: As veias estão dilatadas e podem sangrar, mas não prolapsam para fora do ânus.

Grau II: Os mamilos hemorroidários saem durante a evacuação, porém retornam espontaneamente para o canal anal logo em seguida.

Grau III: As hemorroidas exteriorizam-se no esforço evacuatório e necessitam de redução manual (o paciente precisa recolocá-las para dentro).

Grau IV: O prolapso é irredutível; o tecido permanece permanentemente exteriorizado, o que pode provocar secreção de muco, sensação de umidade constante, dermatites e tromboses de repetição.

Crises sucessivas indicam que a sustentação muscular e elástica dos coxins está se degradando, podendo levar à evolução de um grau inicial para fases mais avançadas.

 

Nem Todo Sangramento é Hemorroida: A Importância do Diagnóstico Diferencial

Um dos aspectos mais críticos no cuidado com a saúde intestinal é a identificação precisa da origem dos sintomas. Diversas condições do aparelho digestivo baixo manifestam sinais bastante semelhantes aos da doença hemorroidária:

Fissura anal: pequena lesão ou corte na borda anal que causa dor aguda e cortante durante a evacuação, frequentemente acompanhada de sangue vivo no papel.

Doenças inflamatórias intestinais (Doença de Crohn e Retocolite Ulcerativa): cursam com dor abdominal, diarreia recorrente, muco e sangramentos anorretais.

Pólipos intestinais: lesões na mucosa do intestino que podem sangrar de forma indolor e necessitam de investigação endoscópica preventiva.

Câncer colorretal e de canal anal: tumores do reto e do intestino grosso podem manifestar-se por anemia, sangramento retal visível ou oculto e alterações no ritmo do intestino.

Apenas uma avaliação clínica presencial, complementada por exames como anoscopia, retossigmoidoscopia ou colonoscopia, é capaz de definir com precisão a patologia presente e afastar diagnósticos graves.

 

Opções Modernas de Tratamento

O tratamento das hemorroidas evoluiu significativamente nos últimos anos. As opções variam segundo o grau da afecção, a intensidade dos sintomas e o histórico clínico de cada paciente.

1. Tratamento Clínico e Modificação de Hábitos

Indicado principalmente nos estágios iniciais (Graus I e II).

Envolve:

Reeducação alimentar rica em fibras insolúveis e solúveis.

Ingestão hídrica direcionada (em torno de 35 ml por quilo de peso ao dia, salvo contraindicação médica).

Banhos de assento com água morna pura para promover relaxamento da musculatura esfincteriana e diminuir o edema.

Higienização perianal com água corrente ou duchas, evitando o atrito mecânico do papel higiênico.

2. Procedimentos Conservadores em Consultório

Para casos em que o manejo comportamental não conteve os episódios de sangramento ou prolapso leve, dispõe-se de alternativas ambulatoriais com rápida recuperação:

Ligadura elástica: técnica amplamente utilizada para hemorroidas internas de graus I, II e alguns casos de grau III, na qual se aplica um pequeno anel de borracha na base do coxim para interromper seu fluxo vascular, fazendo com que ele regrida e cicrize em poucos dias.

3. Técnicas Cirúrgicas e Tecnologias Avançadas

Casos avançados (graus III e IV), hemorroidas volumosas com componente externo importante ou episódios de trombose de repetição podem demandar condutas cirúrgicas:

Hemorroidectomia convencional: remoção cirúrgica dos mamilos comprometidos, sendo uma técnica consolidada e altamente resolutiva.

Procedimentos minimamente invasivos (como desarterialização hemorroidária transanal – THD ou ablação a laser): opções voltadas para diminuir o trauma tecidual e oferecer um pós-operatório com menor índice de desconforto.

A indicação da melhor estratégia cirúrgica ou ambulatorial depende exclusivamente do exame individualizado realizado pelo coloproctologista.

 

Quando Buscar Ajuda Especializada?

Consultar um médico coloproctologista é fundamental diante de qualquer sintoma que interfira na rotina ou apresente persistência. Sinais que justificam avaliação profissional imediata incluem:

Sangramento anal de qualquer volume ou frequência.

Sensação de nódulo endurecido e dor súbita e intensa na borda anal (suspeita de trombose hemorroidária).

Necessidade frequente de empurrar as hemorroidas de volta para dentro após evacuar.

Alterações persistentes no ritmo intestinal (alternância inexplicada entre diarreia e intestino preso).

Falta de melhora após o uso de orientações clínicas convencionais.

Viver com dor ou conviver com o receio de ir ao banheiro não deve ser considerado natural. A avaliação precoce simplifica os tratamentos, evita intervenções mais invasivas no futuro e restabelece a saúde integral com segurança e conforto.

Dr. André Dallago
CREMESC 8829 | RQE 5414
Médico Coloproctologista